Em meio à guerra, pode ser difícil enxergar os caminhos possíveis.
As notícias do campo de batalha, os ruídos nas negociações diplomáticas, a emoção e a tragédia dos enlutados e deslocados; tudo isso pode ser devastador.
Então, vamos dar alguns passos para trás por um momento e analisar como o conflito na Ucrânia pode se desenrolar daqui em diante.
Quais são alguns dos cenários possíveis que políticos e militares estão examinando?
Poucos podem prever o futuro com confiança, mas aqui estão alguns resultados potenciais. A maioria é sombria.
Há três possíveis: guerra curta, guerra longa e guerra que se espalha pela Europa.

1. Uma guerra curta
Nesse cenário, a Rússia intensifica suas operações militares. Há mais ataques intensificados de artilharia e foguetes em toda a Ucrânia.
A Força Aérea russa — que desempenhou um papel discreto até agora — lançaria ataques aéreos devastadores.
Ataques cibernéticos maciços varrem toda a Ucrânia, visando a infraestrutura nacional. O fornecimento de energia e as redes de comunicação são cortados. Milhares de civis morrem.
Apesar de uma resistência corajosa, nesse cenário a capital Kiev cai em poucos dias. E o governo é substituído por um regime fantoche pró-Moscou.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, é assassinado ou foge, para o Oeste da Ucrânia ou mesmo para o exterior, a fim de estabelecer um governo no exílio.
O presidente russo, Vladimir Putin, declara vitória e retira algumas forças militares, deixando para trás o suficiente para manter algum controle sobre eventuais resistências.
Milhares de refugiados continuam indo para o Oeste — em uma semana, mais de 1 milhão de pessoas fugiram do país de 44 milhões de habitantes. A Ucrânia junta-se a Belarus como Estado cliente de Moscou.
Esse resultado não é de forma alguma impossível, mas dependeria da mudança de vários fatores: forças russas tendo um melhor desempenho, mais dessas forças sendo mobilizadas e o surpreendente esforço de luta da Ucrânia desaparecendo.
Nesse cenário, Putin pode conseguir uma mudança de regime em Kiev e o fim da integração ocidental da Ucrânia, mais especificamente com a União Europeia e a aliança militar Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Mas qualquer governo pró-Rússia seria ilegítimo e vulnerável à insurgência. Tal resultado permaneceria instável e a perspectiva de um novo conflito seria alta.
2. Uma guerra longa
Talvez o cenário mais provável seja uma guerra prolongada.
Talvez as forças russas atolem, prejudicadas pelo baixo moral, má logística e liderança inepta.
Talvez demore mais para as forças russas conquistarem cidades como Kiev, cujos defensores militares e civis lutam rua por rua. Segue-se um longo cerco.
Nesse cenário, a luta tem ecos da longa e brutal luta da Rússia na década de 1990 para tomar e destruir em grande parte Grozny, a capital da Chechênia.

E mesmo que as forças russas tenham obtido alguma presença nas cidades da Ucrânia, talvez seja necessário que elas continuem lutando para manter o controle.
Talvez a Rússia não possa fornecer tropas suficientes para cobrir um país tão vasto. E assim as forças defensivas da Ucrânia passam a ser uma insurgência eficaz, bastante motivada e apoiada pelas populações locais.
Outra possibilidade é que EUA e países da Europa continuem a fornecer armas e munições. E, então, talvez depois de muitos anos, talvez com uma nova liderança em Moscou, as forças russas eventualmente deixem a Ucrânia, curvadas e ensanguentadas, assim como seus antecessores deixaram o Afeganistão em 1989, após uma década lutando contra insurgentes locais.
3. Uma guerra europeia
É possível que esta guerra se espalhe para fora das fronteiras da Ucrânia? Impossível prever.
Mas nesse cenário, o presidente Putin poderia tentar recuperar mais partes do antigo império da Rússia enviando tropas para ex-repúblicas soviéticas como Moldávia e Geórgia, que não fazem parte da aliança militar Otan.
Ou pode haver apenas um erro de cálculo e uma escalada dos conflitos no território europeu. Putin pode, por exemplo, declarar que o fornecimento de armas pelos EUA e por países europeus às forças ucranianas configura um ato de agressão que justifica retaliação.
Assim, Putin poderia ameaçar enviar tropas para os Estados bálticos — que são membros da Otan — como a Lituânia, para estabelecer um corredor terrestre com o enclave costeiro russo de Kaliningrado, separado da Rússia justamente pelo território lituano.

